Você não terá nada e será feliz - Parte 1
A conveniência da nuvem é bonitinha até alguém decidir que sua compra não existe mais
Escrito em 16 de maio de 2026 - 🕒 11 min. de leituraEu tenho muita dificuldade de largar as coisas. Eu tenho a mesma biblioteca de fotos no Google Photos e em um monte de HDs espalhados pela minha casa. Sabe aquela “matemática de bro” de levar 20 cuecas numa viagem porque “e se eu me cagar todo dia, 3 vezes”, comigo é assim com toda a minha mídia, preciso ter tudo preservado em lugares diferentes porque e se o Google perder um dos data centers deles e todas as minhas fotos junto?
Eu faço isso porque não confio em “acesso” do mesmo jeito que confio em “o arquivo tá aqui na minha mão”. Se você já mudou de país, trocou de ecossistema, ou viu uma empresa de tecnologia engolir a outra, você sabe que essa diferença importa. Conveniência é legal, mas você tá pagando um preço por isso, e não tô falando da taxa de assinatura.
O “direito de acesso” não é a mesma coisa que propriedade, mas, de alguma forma, a indústria inteira passou a última década tentando convencer a gente de que as duas coisas são basicamente iguais. Não são. Aquela frase “you’ll own nothing, and you’ll be happy” supostamente era pra soar futurista, eu acho, mas pra mim soa sombria.
#HoarderLife
Eu sou, sem sombra de dúvida, o cliente ideal de mídia física.
Eu gosto de prateleira. Gosto de cartucho. Gosto de HD. Gosto de saber que se uma empresa acordar numa terça-feira qualquer e decidir matar um serviço, fundir uma plataforma, renomear um plano, ou enfiar IA numa coisa que antes simplesmente funcionava, as minhas coisas continuam sendo minhas.
Isso não quer dizer que eu moro dentro de um bunker feito de Nokia indestrutíveis. Como já mencionei, eu uso Google Photos. Eu pago Spotify. Eu vejo filme por streaming. Eu vivo no mundo real. Mas eu não confundo conveniência com controle.
Então sim, todas as minhas fotos estão no Google Photos. E sim, todas as minhas fotos também estão guardadas localmente. Porque quando uma empresa fala “relaxa, tá na nuvem”, o que eu escuto é “Pablo do futuro, esse problema agora é teu.” (Aliás: Pablo do futuro, coloca aqui o link do post de degoogling quando você finalmente escrever isso.)
A situação do Concord
Concord foi um desastre tão grande que basicamente deu a volta e ficou interessante. Pode apostar que tenho uma cópia dele na minha prateleira, mas esse não é o foco aqui.
A Sony lançou o Concord na esperança de faturar horrores. Justo, eu não sou anti-capitalista nem nada disso, mas essas empresas babando com a possibilidade de fazer dinheiro infinito com loot boxes me mata por dentro toda vez que vejo. Aí o Concord lançou, flopou, e foi tão ruim que a Sony nem tentou consertar, simplesmente reembolsou todo mundo, tirou os servidores do ar e removeu a versão digital da PlayStation Store. Até aí, tudo bem.
O que me faz questionar a realidade em que a gente vive é que a Sony removeu o jogo à força das contas digitais dos jogadores. Pra colocar em perspectiva: imagina que você comprou uma camiseta que você gosta, talvez você seja colecionador e quer ter todas as camisetas já feitas. Aí o fabricante descobre que tem uma impressão errada, vai na sua casa enquanto você tá dormindo e leva a camiseta embora.
Foi isso que a Sony fez. Eles mandaram remotamente um comando pra todos os PlayStations deletarem o Concord dos HDs locais. Como isso é uma coisa que existe?!? Um jogo que as pessoas tinham “comprado” deixou de existir no momento em que a Sony decidiu que o experimento tinha acabado.
Sim, as pessoas receberam o dinheiro de volta. Claro que era um jogo inútil sem os servidores, mas esse não é o ponto.
O ponto é que a Sony mostrou, com zero sutileza, o que uma compra digital realmente é. Não é propriedade. É permissão. Permissão temporária, revogável, amarrada à sua conta.
Agora compara isso com P.T.. A Konami tirou o jogo da PlayStation Store depois da treta com o Kojima, o que já foi ruim o bastante, mas se você tinha baixado antes disso, ele continuava no seu console. A galera segurou aqueles PS4 como se estivesse carregando um tesouro amaldiçoado. Já era ruim o suficiente. O Concord conseguiu piorar.
A versão antiga do digital era “você não consegue mais comprar”. A versão nova é “você nem pode manter o arquivo inútil e morto que já tinha”. Progresso incrível.
O pessoal do anime já aprendeu essa lição
Os gamers nem são as primeiras vítimas aqui. O pessoal do anime recebeu uma versão speedrun da mesma coisa quando a Funimation foi engolida pela Crunchyroll.
Tinha gente com cópias digitais presas na Funimation que simplesmente não fizeram a viagem. Não foi “aguarde enquanto migramos sua biblioteca”. Não foi “estamos resolvendo detalhes de licenciamento”. Foi só: sumiu. A própria página de suporte da Crunchyroll diz que essas cópias digitais não estão mais disponíveis lá.
Você “comprou” aquele filme que você tanto gosta pra poder assistir quando quiser, mesmo sendo super fácil só piratear, mas não, você pagou pela coisa, e aí puf, sumiu.
Na época do DVD esse problema não existia. Você comprava o disco, jogava o plástico fora, colocava na estante e pronto, a negociação tinha acabado ali. A distribuidora podia desaparecer, ser comprada, ou explodir numa fusão corporativa qualquer que o filme continuaria ali, esperando por você.
É isso que propriedade parece. Bonito. Simplesmente bonito.
A era das assinaturas
Game Pass e PS Plus são o tipo de oferta que parece incrível até você parar de olhar o preço mensal e começar a olhar os anos.
Digamos que você pague uns €200 por ano numa assinatura premium de jogos. Em dez anos, isso dá €2000. E o que você tem no fim? Um histórico de recibos e algumas boas lembranças, eu acho. Quer dizer, não me entendam mal, eu acho que a coisa mais importante que temos na vida são boas lembranças, é isso que faz a vida valer a pena, e é por isso que reviver essas lembranças é tão importante. Jogar de novo aquele jogo tosco da sua infância sendo adulto traz tantas boas lembranças, e você consegue fazer isso porque ainda tem seu SNES na casa dos seus pais com todos os seus jogos. É só ligar e jogar.
Mas com essas assinaturas? Você não tem uma prateleira de jogos. Você não tem algo que pode revender. Você não tem aquela versão específica de 2016 do jogo, antes de três patches de balanceamento e dois experimentos de monetização transformarem ele em outra coisa. No segundo em que você para de pagar, a biblioteca inteira evapora.
As pessoas ouvem isso e falam “ah, mas eu não rejogo jogo”. Justo. Até o serviço piorar.
Entra a enshittification
Porque esse é o xeque-mate de verdade. A armadilha não é que você pessoalmente precisa possuir cada filme ou cada jogo pra sempre (bom, pra mim é, mas vamos fingir que não). A armadilha é que, quando gente suficiente para de possuir as coisas, as empresas ganham o direito de piorar o serviço e você fica sem um lugar decente pra correr. Mais anúncios, preços maiores, catálogo menor, suporte pior, mais lock-in. O arco clássico da enshittification.
Se você quiser um exemplo estupidamente específico, olha pro 3DS. Pokemon Shuffle era um jogo real da Nintendo num portátil real da Nintendo e agora, legalmente falando, virou fumaça pra quem não pegou a tempo. The Legend of Zelda: Four Swords Anniversary Edition era grátis e ainda assim conseguiu se tornar inalcançável. Grátis. Sumiu. A Nintendo de algum jeito conseguiu dar prazo de validade até pra zero euros.
Vamos falar da Nintendo
A Nintendo costumava ser a empresa do “assopra o cartucho e tenta de novo”. Muito físico. Claro, o manual de instruções deles diz pra não fazer isso, mas o que posso dizer? Funcionava.
Enfim, agora a gente tem coisa tipo Super Mario 3D All-Stars sendo vendido com escassez artificial pro preço de segunda mão subir pra uns €130 sem motivo nenhum além de a Nintendo ter decidido que o FOMO merecia uma caixa de varejo. Eu já escrevi sobre como essa lógica de preço funciona no mundo dos colecionáveis aqui. Lá também é irritante, mas pelo menos ninguém finge que isso é pró-consumidor.
Depois vieram os game-key cards do Switch 2. A própria página de suporte da Nintendo literalmente diz que o cartão não contém os dados completos do jogo. Ele é a chave que deixa você baixar o jogo de verdade. Nos jogos físicos normais, o jogo em si é a licença. Agora eles tão fazendo de um jeito que basicamente o plástico que tinha o chip do jogo dentro é a licença.
Então agora, mesmo quando você compra a coisa na loja, leva a caixa pra casa e enfia o cartão no console, ainda pode estar comprando um comprovante de permissão. DRM com cara de mídia física. Cosplay de cartucho.
A Nintendo diz que você só precisa de internet na primeira vez, o que é melhor do que o lixo always-online, beleza. Mas o problema de preservação continua ali, intacto. Se o jogo real mora primeiro num servidor, esse produto físico já vem com uma data de validade escondida dentro dele.
Cartucho costumava ser o ponto inteiro da coisa. Agora às vezes ele é só um recibo com etapas extras.
A fachada do hardware
Eu sinto falta da época em que os celulares tinham funções que realmente moravam dentro do celular. Todos esses anos de avanços tecnológicos, e meu celular atual é tipo 100 vezes mais poderoso que meu computador pessoal de 20 anos atrás.
Meu Nokia velho tinha Wi-Fi e conseguia fazer umas coisas espertas, mas na maior parte do tempo ele era só um tijolinho sólido que funcionava offline e cuidava da própria vida. Eu instalava um app e ele fazia o que tinha que fazer, todo o processamento era local, compra finalizada. Sem assinatura, sem conta na nuvem, o celular fazia o trabalho que eu paguei pra ele fazer.
Agora todo evento de lançamento vem cheio de feature mágica que depende de algum serviço na nuvem fazendo o trabalho de verdade em outro lugar. Um exemplo simples é toda a edição de foto com IA nova, e eu entendo, você não consegue rodar um LLM poderoso dentro do celular, mas se todo o processamento tá sendo feito num servidor, por que só o iPhone mais recente usa o Apple Intelligence, e não, sei lá, um iPhone 3? Ele também tem acesso à internet, né?
Isso quer dizer que a funcionalidade não faz parte do aparelho de verdade. Ela faz parte de um serviço grudado no aparelho. Então agora seu celular físico, que é na verdade super poderoso, é só uma licença. Igual ao plástico do key card da Nintendo.
Isso significa que você paga o preço cheio por aquele celular novo, com todas aquelas features incríveis, esperando ser dono dessas features, mas aí no dia em que a empresa matar esse serviço, enfiar ele atrás de um plano de assinatura, ou decidir que só o modelo novo merece a feature, o seu hardware caríssimo vai simplesmente esquecer como fazer a coisa do comercial. Parabéns pela compra. Você comprou uma tela pra um servidor.
Recomendo muito assistir Common People, um episódio bem deprimente do Black Mirror, que meio que ilustra exatamente esse problema.
Chefe, tô cansado
Eu não tô te mandando cancelar toda assinatura, jogar o celular num canal e viver de DVD ripado e MP3 local como se fosse 2007 (embora isso seria incrível). Eu também faço concessões. Todo mundo faz.
Mas eu acho que algumas regras ainda fazem sentido:
- compre jogos físicos quando der
- mantenha backup local das fotos e arquivos com que você realmente se importa
- prefira compra única quando o produto não precisa de verdade de uma cobrança mensal
- rejeite ativos digitais sempre que puder
- desconfie quando uma empresa vende “conveniência” removendo suas opções
Além disso, mídia física não é só melhor pra preservação. Muitas vezes ela também é melhor pro seu bolso. Você compra um jogo usado, termina, e vende pra próxima pessoa. Tenta fazer isso com uma licença da PSN.
A parte 2 vai entrar mais fundo especificamente nas assinaturas de software, porque esse buraco fica ainda mais idiota. App de fitness, Adobe, “features de IA”, aplicativo cobrando mensalidade pra escrever texto em SQLite, todo o pacote clássico da maluquice moderna. Eu já encostei um pouco nesse nervo no meu post do Musclog sobre acompanhamento nutricional e assinaturas picaretas de apps de fitness, mas ainda tenho mais coisa pra falar.
Por enquanto, o desabafo é esse: coisa na nuvem é conveniente, assinatura às vezes é inevitável, e propriedade ainda importa. Principalmente quando as empresas te dizendo que isso não importa são exatamente as que têm incentivo financeiro pra garantir que você nunca mais guarde nada de verdade.
Te vejo na parte 2.
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